A Importância de uma consulta especializada em doenças da mama

A Importância de uma consulta especializada em doenças da mama

Um contributo para rastreio do cancro de mama personalizado

Outubro, 2024

Uma CONSULTA DE DOENÇAS DA MAMA não existe só para ver Mamografias ou Ecografias!

É muito mais abrangente e implica uma avaliação global da mulher, nas diferentes fases da vida; isto  

significa que a glândula mamaria varia na sua forma, dimensão, e estrutura glandular interior desde a infância até depois da menopausa.

O Cancro da Mama revela-se uma doença extramente complexa e de caráter multifatorial.

1 em cada 8 mulheres desenvolvem atualmente um cancro da mama invasor ao longo da sua vida.

Uma Consulta da Mama implica uma primeira avaliação global da mulher desde o seu histórico de saúde pessoal aos antecedentes familiares. O cancro de origem familiar ou hereditário apenas representa 8-10 % dos casos.

Aquilo que mais preocupa no momento atual, quer á mulher quer ao médico, é despistar um possível cancro da mama, sobretudo numa fase tão precoce quanto possível.

A verdadeira prevenção eficaz do cancro da mama não existe de uma forma bem estabelecida, apenas recomendações de ordem genérica que com a sua prática podem diagnosticar mais precocemente ou mesmo evitar, como corrigir hábitos e estilos de vida considerados de maior risco (tabaco, excesso de álcool, obesidade, falta de atividade física, e ainda muitos outros ainda mal definidos). 

Numa Consulta da Mama deve existir a vertente do ensino à mulher : como deve realizar a palpação sua mama –  O AUTO-EXAME  e melhor avaliar as possíveis  modificações mais frequentes e de certo modo alertar para procurar ajuda no seu médico. 

Na Consulta da Mama deve obrigatoriamente o médico proceder ao EXAME da glândula na sua totalidade, de todos os quadrantes avaliando a fase do ciclo menstrual ( se for menstruada ) no momento da consulta e atenção especial ao Complexo Areolo-Mamilar ( despistar  lesões pré-malignas,  feridas , as escorrências  , retrações ) ; é indispensável palpar as regiões ganglionares das axilas e região cervical para  despiste de gânglios anormais suspeitos.

 É muito importante que o exame da mama seja realizado na posição de deitada e sentada sobretudo com a elevação dos membros superiores. Todos estes pormenores são fundamentais para valorizarmos algum sinal suspeito, pois na maioria não existem sintomas. Todo o cuidado é pouco! 

A sensibilidade global do exame clinico atinge os 50 -55  % e uma especificidade  de 80-90% que depende da experiência do observador e pode ser influenciada pelo volume da mama ou a sua textura ( fibrosa ou adiposa ).

 

É por todos conhecido que a incidência deste tipo de cancro está a aumentar não só em Portugal mas em todo o mundo! 

Em Portugal os números são preocupantes e atingem cerca de 9000 novos casos / ano e destes morrem anualmente cerca de 2000. No entanto se forem diagnosticados numa fase precoce ( isto é sem invasão ou infraclinico )  a taxa de cura atinge os 95 % .

Devemos incentivar as mulheres a realizarem o Rastreio a nível Nacional proposto pela Liga Portuguesa Contra o Cancro e pela Direção Geral de Saúde bem como as recomendações propostas.

Nas consultas de rotina, quer a nível ginecológico e sobretudo na da mama, um dos primeiros objetivos é tentar classificar uma mulher assintomática e perceber se apresenta estigmas que possam definir um baixo risco,  risco intermedio ou alto risco de cancro da mama, tanto quanto  possível .

Felizmente as doenças da mama na sua maioria, são lesões benignas sem qualquer risco depois de bem estudadas, contudo nas fases muito precoces de cancro podem ser mais dificilmente diagnosticadas e o diagnóstico ser mais tardio. 

 

Os médicos de família devem estar bem atentos e ter um alto índice de suspeição, pois muitas vezes o cancro da mama é silencioso e traiçoeiro! 

Os exames auxiliares habituais incluem um exame imagiológico adaptado à idade , ou só ECO mamaria ( como nas jovens depois dos 25-30 anos)   ou associando a  Mamografia de base após os 40- 45 anos  e também para avaliação do tipo estrutura glandular.

Se existem alguns fatores de risco associados de desenvolver Cancro da Mama, os exames devem ser bem equacionados na sequência de novos exames que devem ser para toda  a vida ( intervalos de 1- 2 anos) ou eventualmente mais curtos se informações adicionais importantes. 

Especial atenção às jovens – não realizar mamografias desnecessárias. O risco das radiações !

 

Não realizar exames a mais ou a menos e não criar pânicos desproporcionados.

 

A mulher identificada com fatores de risco ( descritas nas escalas conhecidas)  com ou sem sintomas  podem incluir algumas características especificas – alguma biópsia anterior (mesmo benigna mas com fatores de risco) , mama densa na mamografia,  tipos  de microcalcificações de morfologia atípica , historia familiar  do 1º ou 2 ª grau mais que um familiar cancro da mama ou ovários ( Mãe , tia , irmã , prima ,  cancro mama  no homem,   ou historia de outros cancros ).

Este grupo implica por vezes exames mais específicos como a  Mamografia Digital, Tomossíntese 3 D ou Ressonância Magnética Nuclear da mama  com contraste , em centros especializados de Imagiologia.

 

Acontece com frequência que após a realização de Eco ou Mamografia podem existirem dúvidas nas interpretações das imagens, ou por técnicas deficientes da sua realização ou por interpretações de lesões de caráter duvidoso ( os chamados BIRADS ) -os falsos positivos ou negativos !. 

Nestas circunstâncias estão disponíveis consultas de Radiologia – ditas de CONSULTAS DE AFERIÇÃO, em que outros colegas sobretudo com experiencia nestas  patologias realizam outros exames mais completos para se esclarecerem  as duvidas  e formular um diagnostico mais seguro.

 

Uma situação preocupante no aumento de novos casos são as jovens de idades  inferiores  40 -50 anos ou até raramente de menor idade, que têm surgido nos últimos anos . Investigadores em todo o investigam estas situações e as causas mais prováveis .  

A maioria das jovens apresentam nódulos da mama ( exemplo dos Fibroadenomas) na idade da  adolescente que não representam nenhum risco ,  mas devem ser cuidadosamente estudados pois podem surgir, embora muito raros, cancros da mama que podem ser confundidos

com lesões benignas.

 

Sabemos que mais de 80 % dos cancros da mama são de origem hormonal e isto implica um estudo detalhado se existem causas exógenas responsáveis ( alimentos , medicamentos, hormonoterapia de compensação na menopausa,  etc  ) que possam estar na sua origem .

 

Atendendo a este aumento de casos nesta fase etária e seguindo as recomendações da EU de há 1 ano ,  os rastreios em Portugal vão baixar na idade mínima para os 45 anos  e até aos 74 anos  , provavelmente ainda este ano ou no inicio do próximo ano.

 

O problemas das jovens que tiveram Cancro da Mama  e pretendem engravidar  após os tratamentos  ou se surge  Cancro da Mama na  grávida é uma das situações clinicas muito complexas , mas com soluções clinicas que exigem uma completa avaliação multidisciplinar na Consulta Mama com as especialidades de Ginecologia/Obstetrícia,  Oncologia Médica , Radioterapia e Genética Clinica e  eventual  Cirurgia Plástica) .

 

Uma outra função da Consulta da Mama , será dirigida às mulheres  que tiveram Cancro da Mama e terminaram os tratamento clássicos  e não apresentam recidivas,  e sobretudo que já tiveram alta das instituições hospitalares onde foram tratadas e passam a  ser acompanhadas pelos seu médicos de família ou médico assistente – deve existir um verdadeiro protocolo de seguimento não só para despiste de recorrências ou cancro da mama contralateral  .

Exigem uma especial atenção ao contexto clinico , da sequencia de exames imagiológicos  da mama bem como a valorização de sintomas que eventualmente possam ter relação com a doença sobretudo ósseas ,hepáticas, pulmonares e  sobretudo um exame clínico da mama operada e controlateral ( despistar  novo cancro da mama oposta  ) para uma possível  recorrência loco regional

e/ ou ganglionar.

 

Finalmente o Homem também tem Cancro da Mama, embora muito mais raramente, mas sobretudo o principal sintoma é um nodulo duro retroareolar  e assintomático e detetado por autoexame. 

Não existe rastreio Cancro da mama no Homem!  Somente a divulgação informal.

Aqui surge uma situação clinica de diagnostico diferencial com a Ginecomastia  ( aumento do volume mamário e/ ou nodulo ) , situação muito comum  sobretudo em idades mais avançadas  e geralmente nas idades do Cancro da Mama. 

Aqui o medico deve examinar cuidadosamente a mama, os  sinais clínicos  e regiões ganglionares  a textura da formação nodular ( dureza, aderências, invasão da pele etc ). 

Não deve ser esquecida a correlação da mama com a Próstata e tratamentos bem como medicamentes capazes originar  a ginecomastia ou doenças hepáticas .

 

Todos temos responsabilidades de conhecer e divulgar os alertas das Doenças da Mama, não só à população em geral, como aos colegas de outras especialidades e passar o testemunho.

Porto Setembro de 2024

José  Fleming de Oliveira
Ex- Prof . Assoc. Conv. de Cirurgia da Faculdade  Medicina UP
Ex- Cirurgião  do Grupo da Mama do IPO Porto
Ex – Director de Departamernto de Cirurgia do HPHispano
Ex – Chefe de Serviço de Cirurgia
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